sexta-feira, 13 de novembro de 2009


ECONOMIA

Após a última guerra mundial, mais exatamente a partir da década de 50, houve grandes esforços para diminuir as desigualdades econômicas entre os países mais ricos e os mais pobres. A partir de então, foram experimentadas diferentes propostas com esse fim, procurando atuar, de modo especial, sobre as causas que provocavam esse abismo econômico. Nesses esforços colaboraram países ricos, Ongs, grupos de voluntariado, a sociedade civil em geral; gastou-se uma enorme quantidade de dinheiro, mas os resultados nem sempre corresponderam aos esforços e aos capitais investidos.
Resultado: o desequilíbrio entre países ricos e pobres continuava, as emergências repetiam-se, agravadas pelos conflitos que pipocaram em diversas partes do mundo.

Para agravar ainda mais a situação já precária, foram significativamente reduzidas as ajudas que os países ricos destinavam à colaboração internacional.

Diante desse quadro não muito animador, organizações e pessoas engajadas em movimentos de solidariedade manifestaram interesse em encontrar novas formas e uma nova filosofia para ajudar a amenizar as situações de pobreza no mundo. Em lugar de despejarem quantias enormes de dinheiro que, mesmo destinadas a causas sociais, muitas vezes, se perdiam nos meandros da corrupção política, começaram a procurar formas de entregar o dinheiro diretamente às pessoas interessadas. Não dar o peixe, conforme o ditado popular, mas ensinar e ajudar a pescar.

Essas novas formas de ajudar o outro multiplicaram-se criativamente. Aqui apresentaremos a caminhada realmente revolucionária de solidariedade que resultaria nos “bancos éticos”.

Experiência em Bangladesh

O Prêmio Nobel de Economia de 1996, o indiano Amarthya Sen, dizia que “sem democracia, o desenvolvimento econômico é impossível”. Mas a democracia sem a solidariedade torna o caminho difícil e longo no tempo.

A solidariedade humana não consiste somente em ajudar no momento de necessidades emergenciais, mas em fazer que as pessoas necessitadas possam sair de sua situação de penúria social de maneira definitiva.

O Pime trabalha em Bangladesh desde 1885 e percorreu, durante este 117 anos, toda a trajetória de missão que podemos chamar de “clássica”. Os missionários cuidaram da difusão do cristianismo, construíram capelas, igrejas, escolas, orfanatos e hospitais, cuidaram da saúde e da educação, iniciaram atividades de promoção social, mas tudo era como gotas de água dentro de um oceano de extrema pobreza.

Entrava ano, saía ano, os índices sociais melhoravam com a ajuda dos missionários e missionárias que lá trabalhavam, dando recursos e trabalhando firme, mas quando, por algum motivo, eles deixavam a aldeia, tudo voltava quase à estaca zero.

Pe. Giulio Berutti assim descreve a situação da etnia santal, com a qual trabalha desde 1993:
“Eles vivem uma economia de subsistência, não se preocupam com o dia seguinte, vivem o presente e, se tiverem algum dinheiro, gastam logo em coisas fúteis, como um rádio de pilhas.

Quando precisam de um dinheiro extra, eles o pedem emprestado, tendo como base de valor um saco de arroz, a pessoas que vivem disso, geralmente muçulmanos, a que deverão restituir a quantia, obrigatoriamente, dentro de seis meses e em dobro, o que nem sempre é fácil pagar. Isso cria um círculo vicioso: empréstimo após empréstimo, eles acabam se tornando escravos de seus credores por toda a vida.

Nas foto acima, pe. Berutti com uma colaboradora

Falta-lhes a mentalidade da poupança, fator de desenvolvimento e progresso pessoal. Assim estão sempre à margem do mínimo progresso local”.

Em 1994, em Bangladesh, foram fundadas as Credit Unions, com a mesma filosofia dos bancos éticos, a exemplo do Grameen Bank, criado em 1976. Em 1996, dom Theotonius, bispo de Dinajpur. nomeou pe. Berutti coordenador diocesano desses bancos.

Os resultados são visíveis, sobretudo na mudança da mentalidade local.









O que são as “Credit Unions”?

São cooperativas de crédito para os pobres, cujo intuito é criar uma mentalidade de poupança e favorecer as iniciativas para produzir uma renda, pequena que seja, para as pessoas mais pobres.

Na foto acima, pe. Berutti na sede do banco

As Credit Unions fazem empréstimos mínimos de 30-50 reais que podem até parecer ridículos, mas que geram trabalho e renda, em particular, para as mulheres.

Com esse dinheiro é possível comprar galinhas e vender ovos, adquirir uma cabra para ter leite, comprar apetrechos para bordar. Assim, fazendo e vendendo, cria-se uma renda e muda-se a mentalidade de que é impossível sair da miséria.

A filosofia desse banco é favorecer a poupança dos associados e colocá-la a serviço de terceiros, quando precisarem. O fato revolucionário é que quem pede emprestado ao banco deve restituir o empréstimo a 1% de juros ao mês. No fim do ano, o banco distribui aos sócios que depositaram suas poupanças uma parte dos lucros obtidos e, com o que sobra, cria mais fundos para aumentar o número de empréstimos a terceiros.

Naturalmente, o banco investe esses depósitos de acordo e com a supervisão dos sócios dos bancos tradicionais para obter o juro comercial e assim aumentar o capital social.

Na foto acima, casas onstruídas com a ajuda das Credit Unions

Hoje, em cada paróquia de Bangladesh, existe uma Credit Unions e um conselho administrativo, formado por um representante de cada aldeia cristã, onde existe um banco desse tipo. Por ora, o crédito é limitado aos habitantes das aldeias e aos cristãos.

Pe. Berutti está entusiasmado com o progresso das Credit Unions que detêm, após 7 anos de atividade, um capital social de 120 mil dólares. Com o ajuda de uma Ong italiana, Mani Tese, que financia o pagamento dos funcionários que percorrem as aldeias para difundir a filosofia do banco, esclarecer dúvidas e iniciar outras cooperativas, pe. Berutti quer aumentar o número dos beneficiados. Somente na diocese de Dinajpur, 250 aldeias estão envolvidas, somando 8707 pessoas, na maioria mulheres.

Isso não foi fácil, mas a chave do sucesso consiste em convencer, através de encontros e cursos, as pessoas sobre as vantagens dessa poupança que gera renda e melhoria social, esclarecer as dúvidas e ajudar a criar confiança no sistema.

O percurso da solidariedade

O sistema capitalista das grandes economias, praticamente manobradas pelos bancos tradicionais, exclui os pobres, os que nada têm para investir ou garantir nos eventuais empréstimos. Nos anos setenta, sentiu-se a necessidade de desafiar esses conglomerados bancários excludentes e percebeu-se a exigência de criar um outro sistema financeiro que se inspirasse não somente nas leis do mercado, mas que respondesse a critérios de solidariedade, de natureza social e ética. Era uma reação radical ao sistema bancário vigente que olha para seu lucro e de seus grandes clientes, não só excluindo as classes marginalizadas, mas também associações e organizações não-governamentais que surgiam com intenções humanitárias.

Essa exigência era mais ampla que a simples mudança do sistema financeiro porque visava dar um valor ético e social à riqueza fácil, acumulada pelos bancos em detrimento do progresso social e de uma melhor justiça distributiva. Antes de chegar à concretização dos bancos éticos, que praticamente começaram a dar os primeiros passos em 1994, os grupos de solidariedade buscaram outros caminhos e soluções para tentar diminuir a miséria, socorrer as emergências que afligiam os países, sobretudo os do Terceiro Mundo ou aqueles provados por guerras.

Escola de artesanato em Bangladesh

Uma das primeiras iniciativas foi o comércio equosolidário que eliminava os atravessadores entre os produtores do Terceiro Mundo e os consumidores do Primeiro, a fim de que o comércio fosse mais rentável para os agricultores.

As Ongs do Primeiro Mundo importam das cooperativas de produção alimentar e artesanal do Terceiro Mundo seus produtos, pagando-lhes o preço justo, assegurando assim aos associados, geralmente pequenos produtores e artesãos, uma renda mais digna. Há algumas condições a serem respeitadas por parte dos produtores, como a exclusividade de comércio com associados em cooperativas, a eqüidade entre os cooperados e o respeito ao meio ambiente.

Atualmente, dezenas de países do Terceiro Mundo estão em contato com milhares de lojas desse comércio alternativo, espalhadas em quase todos os países. Nelas é possível comprar produtos africanos, sul-americanos e asiáticos, tais como o café brasileiro cultivado sem agro-tóxicos, o algodão da Zâmbia tratado sem fertilizantes químicos, além de produtos e artesanato de vários povos.

Os passos rumo à solidariedade econômica

Nos anos setenta, foram instituídos, por entidades de solidariedade, religiosas e Ongs, os bancos no profit ou sem lucro, para financiar projetos solidários e ecológicos. O Alternative Bank Scheweis e o Oekobank surgiram como respostas às exigências dos movimentos pacifistas e ecológicos. Esses defendiam o uso responsável do dinheiro, privilegiando financiamentos de pesquisas ou desenvolvimentos de novas formas de cooperação.

Essas organizações, não tendo a garantia patrimonial exigida pelos bancos tradicionais, recebem desses financiamentos sem retorno lucrativo, para ajudar e sustentar iniciativas sociais, a juros baixíssimos. O dinheiro para a manutenção dos bancos provém de doações e aplicações dos depósitos em bancos tradicionais.

O Sistema de Comércio e Emprego Local – Lets – surgiu na Inglaterra, nos anos oitenta, e propunha uma organização que permitisse aos membros de uma mesma comunidade ou vizinhos, o intercâmbio de produtos e serviços locais, sem uso do dinheiro.

No Brasil, em 1991, inspirada por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, foi introduzida a chamada economia de comunhão, propondo um tipo de empresa com um objetivo diferente daquela do tipo capitalista neoliberal. A meta é a partilha dos lucros com três finalidades: a consolidação da empresa; a formação de pessoas para a cultura de partilha e de solidariedade; a ajuda aos necessitados.

Na filosofia da economia de comunhão, existe a cultura da solidariedade, gratuidade e cooperação. O lucro está a serviço da pessoa e não vice-versa. Atualmente, mais de 700 empresas no mundo aderem a esse projeto.

A autogestão é uma maneira de praticar a gestão empresarial compartilhada. As empresas são gestidas pelos trabalhadores que nelas trabalham e tornam-se propriedade dos mesmos (trabalhadores-proprietários), numa espécie de cooperativa social. No Brasil, já existem várias experiências de autogestão, sobretudo de empresas que faliram e foram reerguidas pelos próprios empregados. Em 1994, foi fundada a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária que coordena esse tipo de administração.

Os pequenos empréstimos, sobretudo
às mulheres, vêm gerando gradativamente novas e produtivas formas de comércio informal

Os bancos éticos

Nos anos noventa, surge uma outra proposta que parte de um princípio que se opõe totalmente ao sistema capitalista dos juros bancários.

No sistema atual, os bancos, normalmente, ganham boa parte do seu capital sobre os empréstimos e a poupança dos clientes, remunerados com juros modestos.

Todavia, os empréstimos a terceiros têm juros altíssimos, criando uma enorme especulação na sociedade econômica e encarecendo o conjunto da vida social, pela incidência desses juros especulativos nos financiamentos.

Esse sistema, pela lógica interna, recusa os pobres que mais precisariam de ajuda financeira.





Os maiores bancos alternativos

* O Banco Etimos sustenta, com seus serviços financeiros e assistência técnica, organizações sociais e microempresas do Terceiro Mundo, no Leste europeu e nas áreas pobres de outros países.
Site: www.etimos.it.
* O Banco Ético nasceu, como idéia, em 1990, por iniciativa de cooperativas sociais, sindicatos, Ongs e entidades religiosas que trabalham na cooperação internacional e na economia social.
Site: www.bancaetica.com.
* O Banco Alternativo Suíço, nascido nos anos 90, diferentemente dos outros institutos bancários suíços, recusa fundos de origem suspeita, não aceita contas anônimas e poupanças que não aparecem na declaração de renda do dono.
Site: www.bas-info.ch (em francês e alemão).
* O Oekobank, desde 1984, é a expressão dos movimentos pacifistas. Os fundadores tinham como proposta conjugar o respeito ético ecológico e social com a lógica empresarial. A transparência é máxima e os empréstimos são concedidos somente a projetos de alto valor social, após uma análise de seu comitê ético. O banco alemão recusa-se a investir seu capital em empresas ligadas à indústria de armas, às que não respeitam os direitos humanos e em projetos ligados à energia nuclear.
Site: www.oekobank.de (em alemão).
* O Triodos Bank define-se como instituição financeira que trata com organizações que têm, exclusivamente, finalidades sociais e de desenvolvimento. Esse banco holandês é particularmente ativo na economia social do no profit e na luta contra a pobreza.
O Site www.triodos.com está em quatro línguas: inglês, francês, holandês e flamengo.
* O Site do Grameen Bank, em inglês, apresenta detalhadamente todas as iniciativas e atividades do maior banco ético do mundo: www.grameen.org.

Numa primeira reflexão, as organizações do voluntariado e da solidariedade questionaram-se sobre o papel do dinheiro, das finanças e chegaram à conclusão de que o desenvolvimento social individual e dos grupos estava em estrita relação com o dinheiro e as atividades humanas. Percebeu-se a exigência de que a produção da riqueza e sua distribuição fosse fundamentada em valores mais sociais do que sobre o imperativo da eficiência e do lucro. Nasceu então a idéia de criar um banco novo, com uma filosofia nova; um banco que fosse um ponto de encontro entre os poupadores que partilham a responsabilidade social do próprio dinheiro em relação às realidades socioeconômicas, e que acreditam ser possível lutar pela realização do bem comum.

Essa nova exigência não é tão nova, porque é um fundamento básico da doutrina social cristã e que já foi aplicada nas Caixas Populares, fundadas pela Igreja em vários países europeus, no fim do século 19 e começo do 20. Na prática, a poupança e os juros conseqüentes, confiados aos bancos, salvo o direito do poupador, devem ser transferidos a pessoas ou entidades que precisam para desenvolver projetos de atividades econômicas e serviços sociais A poupança, portanto, torna-se ética, porque sua aplicação contribui para criar premissas que construirão um futuro digno para pessoas até então excluídas do sistema capitalista. Aliás, todos os bancos éticos consideram seus objetivos fundamentais a luta contra a exclusão dos grupos mais marginalizados, a salvaguarda dos bens ambientais e culturais, o desenvolvimento de projetos sociais através de financiamentos a baixo custo, a colaboração com grupos do Terceiro Mundo, com projetos sociais e de valorização de homens e mulheres que acreditam na solidariedade, a exclusão de financiamentos às empresas armamentistas e que usam ou toleram o trabalho infantil. Os bancos éticos querem assim aumentar a autonomia, a capacidade competitiva e empresarial dos mais pobres, para melhorar a qualidade dos produtos e dos serviços.

Essa filosofia já estava sendo plasmada em Bangladesh, pelo Grameen Bank, desde 1976, mas, só entre os anos 95 e 99, surgiram os bancos éticos que começaram a desafiar o sistema financeiro tradicional em vários países.Os bancos éticos propõem-se a dar crédito financeiro e concreto a valores, como a solidariedade humana, a atenção à marginalidade social, a conservação e desenvolvimento do meio ambiente e a favorecer o surgimento de um empresariado ligado ao respeito dos direitos de todos. Os pontos preferenciais dos bancos são:

a) cooperação e animação para a reinserção social e no mundo do trabalho de pessoas que se encontram em situações de inferioridade física, psíquica e social;

b) solidariedade internacional para uma cooperação mais eficiente com os países do Terceiro Mundo;

c) preservação do ambiente, através de atividades econômicas e educativas e da busca de tecnologias com o mínimo impacto ambiental e de novos materiais ecológicos;

d) educação e formação de pessoas em busca de uma profissão ou de uma requalificação profissional;

e) saúde com atividades de prevenção e educação e oferecimento de serviços não contemplados na estrutura sanitária pública.

Na luta dos grandes contra a miséria, mais conversa que fatos

Em 2000, a ONU assinou um compromisso para que, até o ano 2015, se reduzisse pela metade a população que vive com menos de 1 dólar por dia, que, hoje, somaria cerca de 1,3 bilhão de pessoas.

Na reunião de Monterrey, realizada no México entre 12 e 18 de mar-ço, o secretário-geral, Kofi Annan, denunciou que, dificilmente, conseguirá realizar o prometido em 2000 e pediu mais ajuda aos países ricos. Seria preciso – frisava o secretário – passar dos 53 bilhões de dólares anuais, dos últimos tempos, para 100 bilhões nos próximos.

O fato é que as doações dos países ricos, em vez de aumentar, diminuíram e começam até a surgir dúvidas sobre a eficácia dessa quantidade de dinheiro despejada em países extremamente pobres.

Como resposta ao questionamento da ONU, o Banco Mundial preparou um estudo no qual conclui que, sem dúvida, a ajuda direta é o único meio de estimular o desenvolvimento dos países que se encontram nas piores condições e favorecer os programas destinados à infância, ao combate à desnutrição, ao socorro nas emergências com um impacto positivo na economia local.

Dados do Banco Mundial

* Os países com renda per capita até 755 dólares continuam os mesmos 36.
* Aqueles com renda entre 756 e 9.265 dólares são 92, com leve oscilação para cima.
* Antes, havia 52 países com renda per capita superior a 9.266 dólares, hoje, este número aumentou.

Grameen Bank: o modelo de uma iniciativa social revolucionária

O Grameen Bank foi fundado em 1976, por Muhammad Yunus. É um banco rural (grameen, em Bangladesh, significa camponês) que concede pequenos empréstimos aos mais pobres.

Yunus, após ter lecionado por muitos anos na Middle Tennessee State University, nos Estados Unidos, voltou, em 1972, para seu país, que se encontrava numa situação quase impossível.

O mesmo prof. Yunus descreve aquela situação desesperada: “Quando eu ia para o trabalho em Daka, o caminho era semeado de esqueletos de pessoas que esperavam a morte. Todas as elegantes teorias econômicas que eu ensinava eram inúteis e falhas diante dessa realidade. Pensava se havia algo que eu, como ser humano, podia fazer para ajudar pelo menos um entre esses miseráveis. Assim, comecei a pesquisar sobre a vida das pessoas, iniciando pelas aldeias perto da minha universidade”.

Yunus encontrou Sufia, uma viúva com duas filhas, uma dos 65 milhões de camponeses que nada possuíam. Ela pegava dinheiro emprestado para fabricar tamboretes de bambu e os vendia. Além de ser obrigada a vender o produto do seu trabalho para a mesma pessoa que lhe emprestava o dinheiro, os juros eram tão exorbitantes, que ela só conseguia ganhar dois centavos de dólar por dia. Isso revoltou o prof. Yunus.

Sufia precisava apenas de dinheiro para livrar-se daquele trabalho quase escravo: 20 centavos de dólar para comprar bambu. Yunus descobriu que outras quarenta e duas pessoas estavam nas mesmas condições Decidiu, então, emprestar 27 dólares. Instruiu os estudantes que o acompanhavam nas pesquisas para que explicassem que o empréstimo recebido devia ser restituído e que eles podiam vender livremente os produtos manufaturados para quem quisessem. Esse foi o começo. Yunus continuou seu projeto e, em 1976, o Grameen Bank já podia conceder préstimos às pessoas recusadas pelas instituições bancárias tradicionais: pobres, analfabetos e mulheres.

Contrariando toda e qualquer previsão de que o projeto estaria destinado à falência, o sucesso superou todo o otimismo. A média das restituições dos empréstimos, que hoje já podem chegar até 100 dólares, foi altíssima: quase 98%.

O Grameen Bank, agora, é mais que um grande banco. Além de incentivar a atividade econômica da qual obtém os empréstimos, orienta as pessoas sobre saúde, higiene, alimentação mais adequada e planificação familiar.

Os resultados

Uma recente análise das atividades comprova que 46% dos núcleos familiares que receberam os empréstimos, através do Grameen Bank, por um período de pelo menos 8 anos, conseguiu sair dos limites da pobreza e a previsão é que mais 34 % podem, em breve, conseguir escapar do círculo da miséria.

A partir de 1990, as Ongs que trabalham em Bangladesh tiveram à disposição 1,97 bilhão de dólares para projetos de desenvolvimento e produção agrícola. Outra avaliação no campo social refere-se ao papel das mulheres que receberam os empréstimos.

Estas conseguiram uma maior importância nas decisões familiares, uma nova identidade e uma maior auto-estima. Mais ainda: as pesquisas revelaram que a mulher é mais determinada para restituir mais rapidamente os empréstimos recebidos, investir os ganhos na instrução dos filhos e na melhoria das condições familiares.

Abaixo, alguns dados retirados do livro autobiográfico de Muhammad Yunus, O banqueiro dos pobres, Editora Ática, 1997, e do relatório do Grameen Bank, de dezembro de 2000. Devido a sua importância, o banco Grameen recebeu ajuda internacional de várias entidades e empréstimos a juros baixos para ampliar suas atividades sociais. Atualmente, sua filosofia espalhou-se em muitos países.

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